A Double-Decker in my life!

Todas, ou quase todas as cidades tem seus ícones, e cada um deles expressa sua cultura sua forma de ser e incluso o caráter do seu povo.

Muitos são do tipo natural como o Glacial Perito Moreno em Argentina, escultórico como o Cristo Redentor em Brasil, museístico como o Museu Guggenheim – Bilbao/Espanha, ou inclusive arquitetônico, como a preciosa Torre Eifel, mas existem alguns que vão muito mais além… e é aí onde encontramos celebres ícones, tão arraigados em nossa memória que basta uma simples imagem para reportarmos ao seu lugar de origem.

Este é o caso dos ícones de Londres, quem ao ver a imagem das famosíssimas cabines telefônicas vermelhas, não imaginou instintivamente a Londres? Ou as modernas indicações do Metro? Ou o grandioso Big Ben! Mas entre todos – e Londres tem muitos - e com o sentir de uma antiga automobilista, tenho que confidenciar que meu coração cambaleou quando avistei aos míticos “Ônibus vermelhos” por primeira vez.

Famosos por seus dois andares e pela cor vermelha fogo característica que decoram e dão todo o glamour à capital britânica, foram durante meio século os atores incondicionais no palco de uma das cidades mais cativantes do mundo. Mas lanço aqui um grito ao céu, pois os simpáticos Double-Deckers originais estão desaparecendo!

Sim Senhores! O sinal de “Stop” ao Double-Decker foi imposto no ano 2005, quando uma severa ordenança local se cruzou no seu destino, ditando sua remoção do sistema de transporte coletivo e pondo ponto final a uma historia que arranca nos anos 50...

Depois de ser exposto pela primeira vez em 1954 no Commercial Motor Show em Earl's Court, os ônibus Routemaster começaram a rodar pelas ruas e avenidas londrinenses. Criado por Douglas Scott e Colin Curtis tinham motores Leyland. Entre 1954 e 1968 foram produzidos por diferentes fontes e acabaram sofrendo modificações, no entanto, e como símbolo de distinção, só os expertos e os que estiveram relacionados diretamente com os ônibus percebem tais diferenças.

Para então sua principal função era a de substituir aos ‘trólebus’ da capital. Os primeiros foram embutidos nos já demolidos das oficinas London Transport, em Chiswick e nos AEC de Southall. O Routemaster emblemático, além da sua cor vermelha fogo característica, exibe um nariz prolongado como um caminhão e possui apenas uma porta - traseira e sempre aberta – da onde se prolonga a escada para o andar de cima e leva um cobrador que com inconfundível acento britânico grita as paradas…

Se por acaso ouvi algum gritar?... Não, infelizmente não tive esta honra! Os RM que peguei na minha viagem pela capital londrinense já não tinham este toque de glamour e nostalgia do passado.

Os RM´s eram muito avançados para a época, incluíam suspensão independente, direção e freios hidráulicos, e transmissão semi-automática. A linhagem inicial contava com uma carroceria de liga leve, o uso do alumínio para os aviões militares na Segunda Guerra Mundial beneficiou seu desenvolvimento, possuíam 64 acentos, pesando inclusive menos que os antigos de 56 passageiros. O motor ia montado na frente.

A série RML começou a circular em 1961, melhorada em 65, e é o ícone do mais autêntico Routemaster. Pesava 7 toneladas, media 30 pés de comprimento, 8 de largura e 14 de altura, com 72 acentos (32 abaixo; 40 acima). Motor Leyland de 6 cilindros em linha de 9.6 litros capaz de produzir 115hp, acoplado à transmissão semi-automática de 4 velocidades. Foram construídas 2.876 unidades, baixo amplas designações RMA, RMC, RMF, RML, que também sofreram modificações na grade e luzes dianteiras, bandeirola, janelas dianteiras e traseiras superiores e modificações mecânicas.

Em 1962 entrou em serviço a Green Line (a Linha Verde), foi a edição RMC (Routemaster Coach), que estreou suspensão de ar, portas elétricas, iluminação interior fluorescente, luzes dianteiras duplas e prateleiras para bagagem. Em 1966 chegou a série FRM1, com entrada dianteira com motor traseiro.

Em 1970, a maioria das rotas londrinenses foram convertidas a OMO, One-Man-Operation, (Operação de um Homem apenas), eliminando o papel do cobrador.

O Routemaster também foi utilizado pela British European Airways, seus RM´s eram mais curtos - 27 pés - com motores maiores com 70 mph e puxavam um vagão de maletas. Nos anos 70 a mesma empresa foi a primeira a começar a desfazer-se dos robustos RM, dando assim o tiro inicial para que os Routemasters fossem retirados de serviço; uns condenados à ferro velho; outros, dedicados a novos usos em distintos pontos de Gran Bretanha, e alguns imigraram para o exterior. Para princípios dos anos 90, a retirada foi mais acentuada.

A morte dos RM se deve a complicados aspectos legais e de propriedade de exploração, que inclui a privatização das rotas, mudanças e vendas de operadores. O problema exalta em escolher entre praticidade e tradição. Ha nostálgicos que apostam pela conservação e citam suas virtudes de acesso rápido graças a porta traseira sempre aberta, sua simplicidades e confiabilidade mecânica e o impagável potencial turístico. Outro grupo se declina pela substituição, alegando versatilidade dos ônibus atuais, mais seguros e mais econômicos.

O tiro de misericórdia foi dado oficialmente por uma ordem executada dia 9 de dezembro de 2005. Nesse dia, um RM da rota 159, de Marble Arch a Streatham, fez sua última viagem, um percurso emocionante que todos queriam abordar, ao passo do veículo as pessoas lhe diziam adeus como a um ser querido que partisse, (me arrepio só de imaginar!!!) enquanto a imprensa o seguiu até a última esquina, em direção a garagem ante uma multidão que lhe aclamava.

Para a alegria de muitos, uma centena deles foram revitalizados com novos, limpos e mais eficientes motores Cummins, Iveco e Scania, com que se pretendia estender a vida do grupo de seletos sobreviventes uns 10 anos mais. Hoje em dia nas “Heritage Lines” ou rotas de heranças, das linhas 9 e 15 só circulam 16 Routemasters originais, não integram a red TFL de ônibus de Londres e só trabalham parte do tempo. Circulam 6 e 6 em cada rota, enquanto 2 e 2 permanecem de reserva. A Rota 9 faz o percurso Royal Albert Hall - Hyde Park Corner - Piccadilly Circus - Trafalgar Square - Aldwych, enquanto que a 15 vai de Trafalgar Square - Strand - Aldwych - Fleet Street - Cannon Street - Monument - Tower Hill.

Seus usuais e dedicados viageiros são os turistas. A possibilidade de seguir utilizando o ônibus vermelho seria a de destinar-lo completamente ao uso turístico, essa sem lugar a duvida é a última saída aos nostálgicos visitantes e residentes tradicionalistas, que assim como eu se negam a dizer “good-bye” a um elemento tão representativo da urbe, como os taxis negros (que já seria outra historia a contar...), o Big Ben e a Tower Bridge…

Ficamos por aqui, com uma xícara de chá Twinings of London – Earl Grey Tea – umas bolachinhas e algumas fotos, recebam um cordial abraço.



Danielle Pimentel
Antyqua – Europa

DoubleDecker
2 RM Aparcados
Big Ben
Dani y Cabina de telefonos
Dani y el Big Ben
Dani y el RML Historico linea Heritage 15
Dani y la bandera
Danielle London
Dentro del RM
Double Decker
Double Decker
Greenline
Last Stop
rm8_techdiag
RM linea 11 centro de la ciudad
RMC - Linea Verde
RML Historico Linea 9
RMs en el Centro de la ciudad
Routemaster
Routemaster
Routemaster Bus Piccadilly Circus
Soldados de la Reina
The New Green Red Bus

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