Mathis
É interessante como as paixões nos seguem pela vida…
…Paixões de todo tipo. Mas para esta sensação de estar sendo perseguido pelas paixões tem uma definição, segundo a Psicologia, é a "Recepção de Informação através dos sentidos".
E nós os conhecemos bem, explico:
Veja se não é verdade que desde que nos "mordeu" o bichinho do antigomobilismo, vemos a mais autos antigos onde muitas vezes já havíamos passado sem darmos conta?
Ou que "Sem darmos conta", nos cruzamos pela rua com um estupendo auto sexagenário?
Ou mais ainda, nas viagens que fazemos, por mais que não os procuremos especificamente, eles nos aparecem como que por arte de mágica?
Isso foi o que me passou na Itália, em estrada rumo a Veneza. Ia tranqüila, aproveitando ao as incríveis vistas, olhando com atenção à frente e de vez enquanto ao retrovisor para certificar-me do que havia acabado de ver… E em uma destas olhadas furtivas, vejo uma mancha vermelha que se aproximava ao longe e neste instante meu cérebro já se pôs em funcionamento transmitindo-me informação pelo sentido da visão, e que visão!! Tratava-se nada mais nada menos do que um fantástico Corvette, que segundo meus cálculos sensoriais, rondava os 40 ou 45 anos de existência, (creio que era um Corvette anos 70).
Em nós, os antigomobilistas, o sentido da visão é um dos mais aguçados, vemos preciosidades onde muitos não a percebem, mas não é o único sentido que temos e os posso afirmar que ha pouco tempo provei um novo.
Comecei minhas aulas de francês fará mais ou menos 2 anos e um das metas que impus foi a de ler um livro completamente em francês… encontrei um, que não era muito grosso, e que a letra não era muito pequena… sem parar para ler as informações sobre o autor ou sobre que se tratava. Titulava-se "Il a jamais tué personne, mon papa" (Ele nunca matou a ninguém, meu papai).

Livro
Uma leitura suave, tranqüila, desde o ponto de vista de um menino de 11 anos, que falava sobre a profissão do seu pai - médico e sua adição pela boemia.
O livro relata os difíceis anos de 1944 em Paris - 2º Guerra Mundial a ativar recepção de informação pelos sentidos outra vez…
Seguindo com a leitura, em um dos capítulos que se titulava "Papa et son vélo", (Papai e sua bicicleta), relata que seu pai teve que visitar à seus pacientes em bicicleta, pois era muito difícil encontrar combustível e pneus para seu auto!
Neste mesmo instante minha imaginação, que já é bastante fértil, ganhou asas e me encontrei submergida nos anos 40, tentando imaginar qual era o auto do pai dele!?
Segui com a leitura, com a esperança de encontrar algo mais de informação e no capítulo com o nome de "Papa et les gendarmes" (Papai e os policiais), uma vez mais o autor relata que certa vez saiu a passear de carro com seu pai, descreve que estava sentado ao seu lado, no banco da frente quando lhes pararam em uma Blitz Mas ainda seguia sem noticias de que carro se tratava, dei continuidade à leitura, com mais vontade se cabe, de saber sobre que carro falava!!
Para meu desespero, passaram 12 capítulos mais até que o autor se dignificou a voltar a falar outra vez dos carros do seu pai e começava contando que durante muito tempo seu pai teve um Citroën e que debaixo do barro que levava encima, parecia ser preto. Esta duvida referente à cor do carro era devido a que seu pai não era muito cuidadoso com os automóveis e que algumas vezes encontravam o Citroën no meio da horta de beterraba, todo cheio de barro.
Já tinha uma pista, o primeiro carro era um Citroën, rondava o ano de 1944… algo começava a tomar forma na minha mente.
Mas no capitulo seguinte, para meu assombro, "Papa et les autos" (Papai e os carros), falava dos anos 47 e relatava que seu pai tinha um bom amigo que era mecânico de automóveis, (todos nós temos um, não é?) e que este amigo arrumava autos antigos e que lhe havia arrumado um "velho" Mathis!! (Ah que impressionante!?)
A angústia por chegar o quanto antes diante de uma tela de um computador e começar a pesquisar e por cara ao nome "Mathis", foi maiúscula!
"Tratava-se de um pequeno auto triangular", afirmava o autor, pois em minhas pesquisas, era muito mais que apenas um auto triangular, se trata de um carro incrível.
O autor também relatava que o carro era muito pequeno feito para "Papa et Maman" (Papai e Mamãe) e que um dia foi de passeio com eles, sentado encima da caixa de cambio num buraco muito pequeno atrás, entre sua mãe e seu pai…
A marca francêsa Mathis foi criada por Émile Mathis nos anos 1904 e 1946.
Émile construiu os Mathis graças a uma associação com Ettore Bugatti, na fábrica de Graffenstaden, sociedade esta que se rompeu em 1907. Mathis passou a construir veículos mais populares, em uma fábrica em Estrasburgo e Bugatti se dedicou aos carros esportivos e de prestigio.

1907 – Tipo Hermes 60ph
Os primeiros carros “Mathis” surgiram em 1910, com uma produção enfocada aos modelos leves de 1500 cc.

1910 – Tipo Prince 11-40 hp
Mathis teve seu grande momento depois de voltar de Estrasburgo a França. Foram seus anos dourados e se converteu no 4º construtor francês competindo diretamente com a super poderosa Citroën.
Em 1927, Mathis começou a dedicar-se unicamente ao modelo MY, que foi o mais produzido de todos os modelos.
 1926 - Tipo MY Cabriolet |
 1929 - Tipo MY |
Para trasladar este sucesso à alta gama, Mathis lançou o Emysix de 6 cilindros e 11 hp., mais potente e mais leve que seus competidores.

1928 - Mysix
Em 1931, surge o PY, mais compacto que o MY. Nessa época Mathis põem nos seus carros inovações tecnológicas procedentes dos Estados Unidos. Contudo, a crise econômica da época obriga a Mathis a trasladar seus esforços ao moderno 8 hp, o Emyquatre. Começa a idade de ouro para Mathis, com cerca de 15.000 pessoas nas suas fábricas entre 1925 y 1935.

1930 – EMY4 S
No final de 1934, Mathis se aliou com Ford e constituiu o grupo “Matford” para construir em paralelo veículos Mathis e veículos Ford. Mas os pequenos modelos Mathis desapareceram e a aliança finalizou em 1940. Desde seu exílio nos Estados Unidos, Mathis criou à filial Matam que participou no esforço de Guerra.
 1934 – HO – V8 |
 1934 – V8 Cabriolet |
Na fábrica de Mathis estabelecida no subúrbio de Paris, sob ocupação alemã de 1949, se desenvolve de forma secreta um desenho especial para depois da Guerra com o nome em código de VEL 333, que significava (Veículo Econômico e Leve – 3 rodas, 3 lugares e 3 litros de consumo de gasolina aos 100 quilômetros). Seu criador foi o engenheiro aerodinâmico Jean Andreau, com linhas futuristas, foi construído com carroceria de alumínio e pesava aproximadamente 380 Kg com um motor de dois cilindros e 707 cc refrigerado por água. O Mathis 333 foi apresentado no “Salon de l’Auto de Paris” de 1946. E para nosso regozijo, foram construídos somente dez exemplares de este assombroso auto!
Este e o auto que descreve o autor do livro que li, um Mathis VL 333, fantástico e praticamente único (recordem - apenas 10 exemplares no mundo!!) revolucionário para sua época.
Em 1948, no Salão de Paris, foi apresentado o modelo 666 de mais alta gama, que utilizava motor de 6 cilindros, mas ficou apenas no protótipo.
 1948 – 666 Salón Paris |
 1948 – 666 |
 1948 – 666 tras |
Entre 1949 e 1950, Mathis fabricou tratores agrícolas sob a marca Mathis-Moline e em 1952 desapareceu.

1949 - Tractor
Como curiosidade, Mathis foi um grande entusiasta das inovações tecnológicas, e desenvolveu os primeiros motores inteiramente de alumínio e as primeiras caixas de cambio de quatro velocidades.
Mas não termino aqui não, o livro segue e cita a outros dois carros mais um Hotchkiss -1939 preto e um Simca 5, mas sobre eles falaremos em outro momento.
Aqui está a prova queridos leitores! A nós, os antigomobilistas, os autos antigos fazem questão de cruzar-se por nossos caminhos, talvez por puro prazer de que lhes admiremos.
Os convido à que agucem vossos sentidos, saudações cordiais a todos e até a próxima.
Danielle Pimentel
Antiqua - Europa
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