História de uma moto
Pesquisar a história dos automóveis é muito interessante, mas quando descobrimos a história dos automóveis no Brasil é melhor ainda. Notório antigomobilista maranhense, Fernando Silva vive às voltas com a história dos automóveis, de sua cidade São Luis e do estado do Maranhão. Fernando nos enviou o texto digitalizado da obra em sua 3ª. edição assinada pelo jurista, escritor, membro e ex-presidente da AML Dr. Jomar Moraes do ‘Dicionário-Histórico Geográfico da Província do Maranhão’ tendo como autor original da obra Dr. Cesar Augusto Marques, doutor em medicina, professor de matemática e membro Instituto Histórico Geográfico e Etnográfico do Brasil, já falecido. Rendemos as nossas homenagens a estes senhores que preservam a história.
A paixão pelos veículos de outros tempos nasce às vezes de modo imprevisível.
Para mim tudo começou com o desejo de ouvir mais uma vez o som lento e cadenciado. pum-pum-pum.... dos Tratores Landini a ‘testa calda’ (tratores de uma época que necessitavam de aquecimento por lâmpada sueca no cabeçote para dar a partida) aqui da minha região (Norte da Itália) há vinte anos atrás ainda via-se comumente em atividade sobre tudo nas margens do canais bombeando água .
Eram motores simples e incansáveis, monocilíndricos com um grande volante externo. Para dar a partida era um rito: primeiro precisa colocar um forno a gás sob o cabeçote e esquentá-lo até que ficasse incandescente. A um determinado ponto se agarrava o volante com as duas mãos, e com toda a força fazia oscilar como se fosse um pêndulo. Se tudo fosse bem, com alguma baforada de fumaça densa, o motor partia. Mas geralmente partia ao contrário. E então precisava recomeçar e fazer o pêndulo. Mas não é de trator que quero falar.
Era 2001 quando eu trouxe para casa o Landini ‘testa calda’ "Me diverti muito com meus filhos e aquele grande volante externo me fazia recordar e desejar outro mito da minha infância: as motocicletas Guzzi Falcone da Polícia e dos ‘Carabinieri’. Aqueles homens fardados com jaqueta de couro e o sinalizador enfiado dentro das botas. Não me causavam medo, ao contrário me passavam uma sensação de segurança, como anjos da guarda sobre aqueles ‘cavalos de aço’, que maior impossível" (pensava).
Mas a busca pelo novo objeto de desejo esta vez foi menos fácil:
aquelas motos não via-se mais circulando há pelo menos uns trinta anos.
(eu ainda não tinha conhecimento das manifestações e feiras de veículos antigos, para mim era um mundo estranho, nunca havia me deparado).
Até que um dia, na casa de um amigo, o ‘amor a primeira vista’:
Ele me mostrava como se navega na internet, me pede para inserir um nome para buscar, sugeri: ‘guzzi-volante-externo’.
Como por encanto, entre tantos ‘links’ aparece a foto de uma moto para venda. Ainda conservo aquela foto, era esta:
Vocês dirão: ‘O que tem de especial?’.
Na verdade, nada, mas vos asseguro que aquela foto me fez vir o coração na boca.
Eu a achava lindíssima, mais que a ‘Falcone’ que eu lembrava e não notava os defeitos, entendendo absolutamente nada de moto antiga.
O anúncio era em inglês, o preço era em dólares. E também havia a possibilidade de enviar uma pergunta ao vendedor, propus timidamente ao meu amigo de perguntar ao vendedor onde se encontrava a moto. Assim, só por curiosidade.
No dia seguinte meu amigo me disse que a resposta havia chegado;
A moto se encontrava em.....‘Genova, Itália’.
Havia até o numero do telefone do vendedor!
Portanto era menos inalcançável de quanto eu pensava.
Após alguns dias de hesitação decidi telefonar. Eu tinha uma grande curiosidade em vê-la de perto.
Por aquele preço certamente não teria comprado, mas, todavia de alguma maneira precisava começar.
Entretanto eu poderia ganhar um pouco de experiência, também teria visitado o Aquário de Genova.
Ao invés...outro baque no coração: No telefone o vendedor se dizia disposto a tratar o preço, e.... ouçam...ouçam....
Estava disposto a vir até mim com a moto para eu vê-la.
Eu pensei que era impossível que o vendedor estivesse falando sério, nem mesmo saber com quem havia o que fazer...ou então deveria existir alguma coisa sob suspeita, talvez era melhor não confiar....
Mas a curiosidade era muito forte e combinei de encontrá-lo na entrada de minha cidade. Aquele dia chovia em abundância. Esperei um pouco além do horário estabelecido, tanto que pensei: ‘com esta chuva não virá certamente’.
Eu estava para ir embora quando a vi chegar: sobre um reboque puxado por um automóvel, ensopada de chuva!
Pensei que certamente o vendedor não gostava dela, se não havia pensado nem em cobri-la com uma capa.... De qualquer maneira depois das apresentações, levei Mario (o vendedor) no estacionamento coberto de um ‘shopping center’ . Tentamos por um longo tempo fazê-la funcionar, sem conseguirmos. Eu tinha uma grande vontade de enxugá-la, estudá-la com calma, em suma.... colocar as mãos. Não pensava mais nos possíveis logros. Eu estava sempre mais aficionado àquela moto, e talvez Mario percebia: ele já havia desistido de fazê-la funcionar, enquanto eu, ao invés de mostra-me desiludido para abaixar o preço, o convidava para ir a minha casa beber algo quente,enxugar a moto e tentar novamente.
Mesmo após outras tentativas a moto não funcionou no fim Mario voltou a Genova com um belo pacote de notas de dinheiro, eu fiquei a contemplar o meu objeto de desejo. Finalmente meu, mas fui tomado por uma sensação estranha, a descobrir e tratar. O ‘tratamento’ foi longo, em vista do que não sabia a quem recorrer um mecânico especialista nestas motos, que fosse, dentro do possível HONESTO.
Com o tempo criei aquela rede de contatos, indispensável para cuidar pessoalmente dos próprios veículos. Um percurso feito de erros e correções, tentativas, esperas, sucessos e desilusões.
A aquisição da moto no final não se revelou uma trapalhada: os documentos estavam em ordem, o motor era substancialmente são, se bem que com muitos detalhes a serem substituídos: do carburador ao alternador, das bronzinas aos balancins, aos canos de escape, ao farol...e muitos outros.
Mas aquela moto (uma Guzzi GTV ‘bitubo’) ressarciu qualquer sacrifício.
Com um motor elástico, boa tração mesmo em baixo andamento, é muito cômoda para o piloto ( um pouco menos para o passageiro) e confiável, algo que a deixa apta também para viagens bastante longas.
Devagarzinho, desmontando e montando e freqüentando as feiras especializadas, eu a reconduzi próximo ao aspecto que deveria haver quando foi fabricada, em dezembro de 1937.
Em seguida, tive outras motos, mas a sensação e as emoções experimentadas naquele período foram únicas: a primeira partida no motor, as primeiras experiências em guiar, a primeira viagem noturna à luz do farol.
Mario me contou que a moto pertenceu, entre outros, ao um médico de um povoado nas montanhas, na província de Cuneo; e que a moto, durante a Segunda Guerra Mundial, foi solicitada pelos partidários, e depois foi devolvida ao doutor, amassada, mas funcionando, no final da guerra. Porém os documentos (datados de 1960) citam como ano do primeiro emplacamento, em 1945.
A moto foi então, emplacada novamente logo após o fim da guerra.
Eu queria saber mais a respeito.
Assim, em fevereiro de 2005, me inscrivi ao ‘Pubblico Registro Automobilístico di Cuneo’ solicitando e ‘Extrato Cronológico’ da minha moto, isto é, toda a lista retroativa das transferências de propriedade.
A fotocópia que me foi enviada não era legível, assim decidi pegar um dia livre para ir pessoalmente a Cuneo, para consultar o arquivo.
Cuneo é uma cidade pequena, tranqüila, as repartições estavam lotadas, a funcionária foi gentil e disponível.
A moto foi vendida para Turim em 17 de janeiro de 1938, o primeiro proprietário havia pagado por ela 7 mil liras (o equivalente a 8 salários).
Por aquele valor, com certeza não acessível à massa popular, foi comprado o de mais moderno que indústria motociclística italiana produzia: uma ‘meio litro’ brilhante, graças a distribuição de válvulas no cabeçote (OHV) que assegurava rendimento e potencia superiores com relação aos velhos motores de válvulas contrapostas; moderna, para pedal de câmbio, mais prático do que aquele manual; e sobre tudo dotada de chassi com suspensão patenteada Motto Guzzi, um grande passo de avanço tecnológico,para maior conforto e capacidade na estrada, e também um sucesso comercial, após as vitórias esportivas obtidas a partir da Tourist Trophy de 1935.
Modena também na linha: com o tanque tipo ‘sela’, novidade de origem inglesa que há anos havia suplantado aquele modelo ‘sottocanna’ (tanque sob o quadro) e os dois escapes tipo ‘rabo de peixe’, sem uma real utilidade, mas na moda naqueles anos.
O nome resumia tudo em três palavras: G.T.V. = Gran Turismo Veloce.
Em 1942 a moto troca de proprietário e pega a placa de Cuneo, que permanece até hoje em dia (ainda que, depois da guerra, todas as placas que levavam o selo metálico com o ‘fascio littorio’ - símbolo fascista - foram substituídas por aquelas dotadas pelo emblema republicano).
No espaço de poucos meses passa de mão mais duas vezes. Os valores declarados nestas negociações oscilam entre 5.000 e 6.000 liras.
Estamos em maio de 1943, o período mais sombrio do início da guerra.
Nas fábricas do norte da Itália, uma onda de greves, a causa das insuportáveis condições de vida impostas pelo regime, o exército sofre graves derrotas militares, os aliados anglo-americanos desembarcam na Sicilia.
Provavelmente o novo proprietário da moto é um idoso, visto que de homens na idade de 18 e 50 anos encontravam-se poucos circulando, as convocações ao serviço militar não poupavam nem os com mais de 40 anos.
Ou talvez nem fosse idoso, dispensado da convocação às armas por deveres profissionais.
Estamos no limiar da crise política que em 25 de julho levará a prisão de Mussolini, ao governo Badoglio e nos primeiros dias de setembro, a ocupação nazista e a conseqüente luta partidária Justamente em Langhe, ou seja, território das colinas a leste de Cuneo, em setembro de 1943 foi palco das mais duras batalhas entre as brigadas partidárias e os nazi-fascistas. Neste período a nossa GTV poderia ter sido efetivamente utilizada para este contexto, mesmo que, do extrato cronológico, isto não resulta.
Em 1959 a moto veio vendida a Giovanni M., agricultor, e o qual no ano seguinte resultavam nominados os novos documentos de propriedade.
E aqui finalizavam as informações do arquivo.
Era meio dia e eu não tinha vontade de voltar logo para casa.
Eu queria ver a região na qual a minha GTV tinha ‘vivido’ de 1942 a 1999: as colinas unidas entre os povoados de Mondovi,Dogliani e Marsaglia. São terras muito bonitas, ricas de castelos, vinhedos e ótimos vinhos. Por que ir embora tão rápidamente?
Me dirigi a Marsaglia, o povoado de Giovanni M., o agricultor que manteve a moto mais de todos: por bem 40 anos de 1959 a 1999.
Entrei num bar, tomei um café e perguntei a quatro idosos que jogavam cartas, se algum se lembrava de uma moto Guzzi vermelha, com o volante externo. Olharam-me desconfiados. Eu expliquei o motivo o qual me encontrava ali, e eles um pouco incrédulos me indicaram uma casa costada em uma colina, pouco depois eu estava em frente ao portão, mas hesitava em tocar a campainha.
Era também um horário ruim: aquele que se levanta da mesa após o almoço, para voltar ao trabalho. Mas toquei. Nas mãos tinha os documentos da moto.
O portão se abriu e fui recebido com gentileza, hospitalidade e também curiosidade: O Sr. Giovanni M. era falecido há pouco tempo, e o filho Mauro, cedida a moto, estava feliz por encontrar os vestígios.
Assim o círculo se fechava.
Com um gesto de grande gentileza a família de Giovanni me presenteou com algumas fotos.
O aspecto, quando coube a Giovanni antes da restauração, era este:
(a foto é do fim dos anos 70)
A mesma moto algum tempo depois, em frente ao seu orgulhoso proprietário, restaurada como nova. (mas sem respeitar muito o aspecto original)
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Mauro me deu outra notícia útil, o filho de Giovanni, antes de nos despedirmos: ele também havia ouvido seu pai falar de um médico que nos anos da guerra, visitava os pacientes espalhados pelas colinas servindo-se ‘da Guzzi 500’. Mas era a mesma moto comprada depois por seu pai?
Isto não foi possível saber. Porém Mauro me disse que o filho do médico é o atual prefeito de um povoado vizinho: Monesiglio.
O meu tempo já estava esgotado, devia voltar para casa.
No dia seguinte, porém telefonei a “Comune de Monesiglio’ e falei com o prefeito, o Sr. Paolo T. Nos últimos anos da guerra ele era uma criança. Lembrava que seu pai, médico daquela região, utilizava uma Guzzi GTV para visitar os pacientes. Até quando os partidários os deixaram a pé, e assim por um determinado período, teve que fazer todas as visitas em bicicleta um no lombo de um burro.
Terminada a guerra, a moto foi reencontrada, sem placa e sem as rodas.
Porém Paolo não sabia que fim tinha sido dado a moto de seu pai, além do mais lhe parecia que tinha sido adquirida nova pelo doutor, embora saibamos que do doutor T. não existe nenhum vestígio no extrato cronológico.
A história acaba aqui, ou melhor, continua, uma vez que, as motos bem mantidas - e salvo as calamidades imprevisíveis- são destinadas a sobreviver aos seus proprietários.
Portanto, eu também sou um custódio provisório. Tenho aproximadamente a idade que o Sr. Giovanni havia quando se apropriou da moto em 1959.
Portanto ainda tenho a possibilidade de bater o seu recorde de 40 anos de custódia.
A Guzzi GTV sorri taciturna...
Kranz
A começar pela GTV sou apaixonado pela moto Guzzi de todas as idades.
Moro no campo e tenho a sorte de ter bastante espaço a disposição e uma garagem onde, sobre a bancada tenho sempre uma moto em fase de restauração. Atualmente é um 750S de 1974, no estado da foto abaixo.
Espero terminá-la antes do verão.
Não sou muito entendido de mecânica, para as motos de antes dos anos 50 me dirijo a um mecânico de confiança.
Para aquelas mais antigas, ao invés, não deixo ninguém colocar as mãos, decido eu.
Aprendi a pintar muito bem, portanto o trabalho de funilaria faço sozinho.
Exceto os filetes e a pintura metalizada que são muitos difíceis para mim.
Gosto também da história, da moto Guzzi li vários livros publicados e estou sempre a procura de novo material.
Ás vezes faço viagens curtas (dois-tres dias) em companhia de amigos motociclistas conhecidos através da internet.
Viajamos com as V7, ou as 850 GT dos anos 60-70: ótimas companheiras de viagem para um turismo ‘tranqüilo’.
Cordiais saudações,
Kranz
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