Graziela Fernandes Santos
A dama de Interlagos
Desde antes de conhecê-la pessoalmente a vontade em publicar a sua história, vem me perseguindo. Uma mulher que se destaca na terra, no mar e no ar dominando os motores é um fenômeno!
Tive a oportunidade em ser apresentada a esta ‘grande dama’ há quase um ano, por meus amigos Maria Luiza Clemente e o grande ‘mito’ Bird Clemente. Estávamos no encerramento da ‘Semana Cultural da Velocidade’ organizado por Paulo Soláriz no Espaço Cultural do Conjunto Nacional em São Paulo e nesta noite reuniram-se estrelas da maior grandeza. Um verdadeira constelação.
Este ano tem mais, as informações estão no final deste artigo.
A segunda grande chance em encontrar com Graziela foi no no evento do ‘São Paulo Fashion Car’ realizado no Anhembi em 2010. Graziela é membro do Alfa Romeo Club do Brasil e estava expondo um exemplar de sua propriedade e agraciou todos os seus fãs ao sair com o automóvel em passeata pelas ruas de São Paulo. Graziela e aquela fila imensa de Alfa Romeo espetaculares.
Eu fiquei fascinada com o carisma desta mulher. Simpática e de uma elegância singular. Conserva uma silueta frágil e é difícil imaginar tanta coragem dominando motores de todos os tipos e cilindradas ao ponto de deixar muitos marmanjos para trás e, incrível, tornaram-se seus admiradores e grandes parceiros.
Graziela é a primeira mulher a se tornar piloto de competição no Brasil e proporcionou grande momentos nas pistas. Confirma com todas as letras NUNCA SOFREU ALGUM TIPO DE DISCRIMINAÇÃO. Imaginem vocês, o autódromo de Interlagos, nos anos 60 e 70 anos no auge do automobilismo brasileiro, estas feras juntas nas pistas. Realmente é de juntar lágrimas nos olhos.
A sua biografia é muito extensa e cheia de detalhes e pedi autorização prévia ao jornalista Paulo Paralta do site ‘Bandeira Quadriculada’ para publicar ‘ipsis litteris’ a história de Graziela Fernandes Santos. Peralta gentilmente autorizou.
Lendas e Histórias
Paraguaia de nascimento e brasileira de coração tinha sangue italiano nas veias, sua mãe era italiana.
Na pré-adolescência quis, pediu e ganhou uma pequena moto de 50cc. Já adolescente fez o Curso Normal e, gostando muito de motores e velocidade, fez também um curso Técnico de Engenharia de Motores.
Nasceu no Paraguai, mas na primeira oportunidade mudou-se para o Brasil, e, já naturalizada, diz até hoje que se considera brasileira pelo tanto que gosta do país.
Morando inicialmente no Rio de Janeiro e possuindo um carro esporte marca Willys Interlagos, conversível, inscreveu-se em uma prova feminina, preliminar da “100 Milhas da Guanabara”, onde correu patrocinada pela concessionária Cássio Muniz, que cuidou da preparação do carro.

Peralta e Graziela Fernandes Santos
Morava no Rio e querendo sempre estar perto de automóveis e motores tentou trabalhar na FNM, mas não conseguiu, depois tentou em São Paulo e conseguiu na Willys. Feliz da vida mudou-se imediatamente para São Paulo e começou a trabalhar no Depto. de Engenharia Experimental como piloto de testes, testava tudo que seria lançado um ou mais anos depois. Os engenheiros introduziam modificações e os pilotos testavam.
Por essa época corriam na Equipe Willys, Wilson Fittipaldi e seu irmão Emerson Fittipaldi, o Moco e o Luiz Pereira Bueno tentou correr pela equipe, mas não podia porque trabalhava na fábrica, então a Willys lhe cedeu um Renault 1093 para correr, o carro era da fábrica, mas não da Equipe, mas era a Equipe que preparava o carro. Nessa época quem ajudou muito, ensinando, apurando seu dom natural de correr, foi Luiz Pereira Bueno, um piloto muito técnico e rápido. Sua primeira corrida com esse carro foi em Interlagos numa prova feminina, chegou em 3º lugar, depois correu em Piracicaba onde participou de duas corridas, Grupo II e Grupo III.

Renault 1093 em Piracicaba 1965
Correu o Mil Km de Brasília de 1966 em dupla e com a Berlineta do “Tigrão” da Torke (Luiz Carlos Fagundes), mas foi a Equipe Willys que preparou o carro. Não terminaram, o carro quebrou quando faltavam apenas duas horas para o final. Tinha também uma de passeio, modelo Berlineta, que tirou zero na fábrica, com motor mais possante.
Correu de Kart. Numa ida à fábrica de volantes que o Emerson e o Wilsinho tinham, viu um Kart Mini no chão, nunca tinha visto, e na conversa surgiu o convite:
”- Olha, no fim da semana tem corrida pelo Campeonato lá em Ribeirão Preto, vai para lá que te emprestamos o Kart.”
Foi, e lá chegando passou primeiro pelo kartódromo, quando viu aqueles carrinhos e a velocidade que andavam, pensou em desistir, afinal só tinha corrido em carros de turismo, mas como era tarde resolveu pernoitar na cidade, quando chegou ao hotel, os repórteres de televisão, de jornal, revista, estavam todos esperando por ela, a “boneca que ia correr”.
”- Eu não pude mais cair fora, como eu ia falar que nunca tinha andado?” Recorda.
Lá foi, treinou no sábado e no domingo correu, chegou em 3º lugar.
Da categoria estreante já saiu na 1ª corrida, pois pegou pódio. Depois fez 2 de novatos, e por pontos passou para profissional. Aí não correu mais, não tinha como conciliar com seus outros interesses.
Em 1967, mesmo não correndo, não se afastou do automobilismo, por exemplo, foi quem pilotou o carro madrinha no Circuito de Piracicaba, um Ford Galaxie 500.
Saiu da então Ford-Willys quando a Chrysler a convidou em 1967 para montar um curso de mecânica para mulheres iniciou o curso, mas na época, paralelamente, existia o Curso Marazzi de Automobilismo que em 68/69 foi patrocinado pela Ford que a chamou para fazer o curso na Ford. Lá foi ela para a Ford, o Marazzi fazia o curso para homens e ela um voltado para mulheres.
Esse período, 1968 e 69, com o autódromo de Interlagos fechado para reformas e desligada da Ford, não competiu, mas sempre continuou ligada aos automóveis.
Das mulheres que participavam de corridas na época ela diz:
”- Fui a única a seguir carreira, a Lulla, a Marise até fizeram algumas corridas, mas as outras só faziam prova feminina.”
Depois da Ford foi trabalhar numa concessionária Volkswagem na Av. Ibirapuera em São Paulo , a Itapuã, como gerente de vendas de novos e usados. Comprou um Karman Ghia com motor Porsche, mas o câmbio não agüentava, era curto, muito bom para arrancadas.
Como era muito amiga do casal Lulla e Piero Gancia e Emilio Zambello da Equipe Jolly-Gancia comprou uma Alfa GTV de 1600cc. e acompanhando a equipe acabou sendo convidada para correr.
Arrumou um patrocinador, a Valvoline. Mas sua primeira prova pela equipe, a prova da Rod. Pres. Kennedy (RS) foi com seu próprio carro, seria para correr com um carro da equipe, o carro havia sido oferecido para ela, mas Rafaele Rosito (RS), que estava 1 ponto atrás na disputa pelo Campeonato Gaúcho, pediu um carro e eles não tinham, eram três carros, o do Zambello, o do Piero e mais um, então propuseram preparar sua Alfa particular e o carro da equipe foi para Rosito, e a Jolly-Gancia conseguiu:1º com Zambello, 2º com Rosito e 4º com Graziela. Quem chegou em 3º foi Bertuol (RS), que disputava com Rosito (RS) o Campeonato Gaucho:
”- Na última curva ele me passou, quase me jogou fora, mas não interessa, corrida é corrida. A diferença nossa acho que foi de 3 ou 4 seg.”

Moco, Graziela Fernandes '3 Horas de Velocidade da Guanabara 69 - Acervo de Sidney Cardoso
Depois passou a correr com a Alfa da equipe, mas pintada com as cores da Valvoline, seu patrocinador, sua primeira foi a “X Mil Milhas Brasileiras de 1970”, convidou Carlos Alberto Sgarbi para correrem em dupla, e com 64 carros disputando chegaram em 7º lugar na geral. Convidou também ninguém menos do que Ciro Cayres para correrem em dupla a ”12 Horas de Interlagos“, de 1971, mas na corrida Ciro quebrou o cambio e não terminaram.

Mi Milhas Cyro com Graziela Fernandes
Em 71 também participou, sozinha, da “VI 6 Horas de Interlagos”, pelo anel externo e em 3 baterias, chegou em 7º lugar na geral.
”- Porque parei na Jolly-Gancia? Porque proibiram correr carro importado, que se não, teria continuado sempre, a equipe era uma maravilha.”
Na época, onde a Equipe Jolly-Gancia ia, era sempre a novidade: “Quem é a Graziela? Onde está a Graziela?”
Sua última prova pela equipe foi o "XII 500 Quilômetros de Interlagos" em 1971. Quando a Jolly-Gancia parou, seu patrocinador, a Valvoline, tinha equipe de StockCar e a convidou para correr.
" - Experimentei o Opala, mas naquela época sair de uma Alfa e entrar num Opala era um horror”, não se adaptou e parou de correr.

Segunda Etapa da Copa Brasil 70 - foto Rogerio P. D. Luz
Parou, mas sempre possuiu moto possante, veloz, outra de suas paixões. Aí conheceu seu marido e se casaram em 1973, não trabalhou mais, mas não virou dona de casa e nem teve filhos, começaram a abrir uma fazenda, o que não é um trabalho fácil. Como precisavam de um meio de locomoção rápido, ela aproveitou para realizar outro sonho de juventude, tirou brevê e compraram um avião monomotor, voou 7 anos com ele, depois compraram um Sêneca, 2 motores, voou mais 18 anos. Foi a primeira mulher a conseguir a licença mais graduada do Brasil, a PLA (Piloto de Linha Aérea).Foi examinadora de pilotos por muito tempo, no Brasil inteiro. Tirou licença de co-piloto de LearJet, jatinho bi-reator que faz até 900 Km/h . Voou um total de 31 anos e 7.000 horas de vôo.
Em 1983, meses antes da "Mil Milhas", seu marido quis correr em dupla com ela e como era uma corrida longa, boa, compraram um carro pronto, o Opala StockCar de Zeca Giaffone que havia sido preparado por Jayme Silva, mas como ele tinha sua equipe, então foi Vinicius Losacco quem preparou e deu assistência de pista.

GRAZIELA FERNANDES 1000 KMS de Braslia 1970 - Foto acervo de Sidney Cardoso
Com gasolina nas veias, quando no ano de 1990 a convidaram para fazer o Campeonato de Off-Shore, barco, aceitou. Fez o Campeonato Brasileiro de Off-Shore de 1990 e se saiu muito bem, ficou em 3º lugar na categoria Off-Shore. “- Parei porque pararam as corridas de Off-Shore. Teve um tempo que parou, proibiram, senão eu teria continuado, era uma maravilha.”
Por todo esse tempo teve moto Kawasaki Ninja de 900cc., avião (25 anos - 74/99), e sempre carros com motores possantes. Isso nunca mudou, estava no sangue.
Quando em 1995, a mesma equipe, agora com barcos da categoria Fórmula 1, tinham 3 barcos, mas 1 dos barcos, o piloto, italiano, estava na Europa e não conseguiu vir, então a convidaram, era uma final de Campeonato na Represa de Guarapiranga em São Paulo e estavam na frente do campeonato, naturalmente aceitou. A corrida era no domingo, o convite foi na quinta, na sexta arrumou macacão, capacete, tudo, aí treinou no sábado, correu no domingo e chegou em 3º lugar.
“- As corridas sempre foram uma paixão, tenho uma verdadeira paixão por velocidade.”
Tabela de participações e resultados
(com a colaboração de Napoleão Ribeiro e Ricardo Cunha)
26/07/1964 - 100 Milhas da Guanabara/RJ - Prova Feminina - Barra da Tijuca - Willys Interlagos 998cc nº 19 - 3º Lugar
19/06/1965 - Prova Feminina - Interlagos/SP - Renault 1093 845cc nº 23 - 3º Lugar
08/08/1965 - V Circuito de Piracicaba/SP - Grupo II - Renault 1093 845cc nº 23 - 8º na geral e 2º na G II
08/08/1965 - V Circuito de Piracicaba/SP - Grupo III - Renault 1093 845cc nº 23 - 9º na geral e 2º na G III
01/05/1966 - II 1000 Quilômetros de Brasilia/DF - Eixo Monumental -Willys Interlagos 998cc nº 68 - C/Luiz Carlos Fagundes - 18º na geral e 6º na GT/PT
12/06/1966 - GP IV Aniversário da APVC - Prova Feminina - Interlagos/SP - Renault 1093 845cc nº 166 - 2º Lugar
12/06/1966 - GP IV Aniversário da APVC - Interlagos/SP - Renault 1093 845cc nº 166 - 16º na geral e 2º na G III
27/07/1969 - Prova Rod. Pres. Keneedy - Lageado/RS - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 4º Lugar
22/11/1970 - X Mil Milhas Brasileiras - Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - C/Carlos Sgarbi - 7º na geral e 3º na D3
06/12/1970 - Copa Brasil - 1a Etapa - Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 12º Lugar
13/12/1970 - Copa Brasil - 2a Etapa - Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 14º Lugar
10/01/1971 - Preliminar da Formula 3 - 1ª Corrida - Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 9º Lugar
17/01/1971 - Preliminar da Formula 3 - 2ª Corrida - Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 10º Lugar
25/01/1971 - Preliminar da Fórmula 3 - 3ª Corrida - Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 10º Lugar
21/03/1971 - 12 Horas de Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - C/Ciro Cayres - D5 – AB
23/05/1971 - Corrida dos Campeões - Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 10º na geral e 1º na D5
04/07/1971 - 6 Horas de Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 7º na geral e 4º na D5
01/08/1971 - 300 Quilômetros de Tarumã/RS - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 8º na geral e 5º na D5
07/09/1971 - XII 500 Quilômetros de Interlagos/SP - Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 14º na geral e 5º na D5
11/12/1971 - 1ª Etapa da Copa Brasil - Interlagos/SP -Alfa Romeo GTA 1.570cc nº 33 - 15º na geral e 4º na D5
22/01/1983 - XIII Mil Milhas Brasileiras - Interlagos/SP - Opala 4.093cc nº 21 - C/Carlos Alberto dos Santos (Cala) – AB
10/07/1983 - 12 Horas do Rio de Janeiro/RJ (Marcas e Pilotos) - Jacarepaguá - Fiat 147 1.297cc nº 35 - C/Carminha Mascarenhas - AB
Elisa Asinelli do Nascimento
Março 2011
Antyqua
elisa@antyqua.com.br
Agradecimentos especiais:
Paulo Peralta
‘Bandeira Quadriculada’
www.bandeiraquadriculada.com.br
Semana Cultural da Velocidade
De 14 de março a 2 de abril 2011
‘Velocult’
www.velocult.com.br
‘Semana Cultural da Velocidade’
 Luiza Clemente, Elisa, Miguel Crispim, Paulo Gomes, Soláriz, Bird Clemente e Nilo de Barros Vinhaes |
 Graziela Fernandes Santos, Miguel Crispim e Elisa A. do Nascimento |
Fotos:
Bandeira Quadriculada
Retrovisoronline
Publiracing
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